"Não temos presente.
A nossa consciência está quase completamente

preocupada com memórias e expectativas.
Não percebemos que nunca houve, há, ou haverá

qualquer tipo de experiência além da experiência do momento. 
Portanto, nós estamos fora de contacto com a realidade.
Nós confundimos o mundo como ele é falado, descrito, e medido

com o mundo do modo que ele na verdade é.
Nós estamos [presos a] uma fascinação pelo uso de ferramentas,

de nomes, números, símbolos, sinais, conceitos e ideias.”

 

- Allan Watts

Quando se menciona o nome Allan Watts recordo de imediato a primeira vez que escutei o seu discurso sobre o 'Ser Nada' - On Nothingness.

 

O 'Nada' enquanto espaço inicial criativo, uma 'tela em branco' a partir do qual tudo o que existe nasce.
Um ponto-zero acessível quanto aceitamos, mesmo que temporariamente, desapegar-nos daquilo que sabemos. 

 

Esta proposta de significado para o 'não-saber', o 'nada', a 'não-acção' foi-me apresentada pela 1ª vez como uma atitude ou estado de presença pessoal, essencial à facilitação da abordagem sistémica – metodologia fenomenológica de intervenção em sistemas organizacionais. E acorda as memórias de um ano de formação em facilitação de trabalho sistémico, onde, num espaço seguro, pude permitir-me praticar algo que há muito havia deixado para trás - suspender o saber, sentir profundamente, sensoriar enquanto modo de conhecer.

 

 

MA’ foi a expressão japonesa apresentada pelo nosso professor, ao falarmos da qualidade de presença que um facilitador deve procurar desenvolver. Uma qualidade de presença que, nos dias de hoje, muitas vezes me refiro enquanto um estado de 'ser contentor-veículo'. É um prestar atenção ao corpo interior e observar os fenómenos que se produzem por dentro, em simultâneo com a  interacção com o que nos rodeia. Desenvolvemos um estado de presença que se predispõem a sensoriar o que está presente, mas não é visível. 

 

Esta forma de estar, querer escutar e reconhecer o que não sabemos gera um movimento continuo de atenção ao nosso interior e ao exterior para identificar pensamentos, sensações e outros diálogos internos e simultaneamente um esforço consciente para deixa-los ir, uma dança permanente para criar espaço em nós para o que quer ser, no momento.

A quem trabalha com processos de aprendizagem ou qualquer pessoa que busque formas de ser, estar ou fazer que ajudem a criar melhores soluções  sugiro explorarem e descobrirem a sua forma pessoal de desenvolver este estado de presença. 

Tenho duas práticas que consegui consolidar ao longo dos últimos anos: a prática matinal e a prática de preparação antes de apresentar-me para facilitar algum processo individual ou aprendizagem de grupo. São práticas que incluem asanas, práticas de respiração, meditação, canto de mantras e outros rituais, que ajudam-me a centrar e enraizar a mente no corpo presente.
 

A jornada para o espaço criativo do nada é uma jornada pessoal desafiante. Ao longo do percurso cruzamo-nos com o apego ao que sabemos. Um apego que muitas vezes está na base da nossa identidade e sentido de pertença e por isso reclama que respeitemos o  ritmo próprio de cada um. 

 

Esta prática de estar sereno e centrado no espaço do Nada, eleva-nos para níveis de atenção superiores, mais abrangentes, que integram polaridades e no caminho ajuda-nos também a  desenvolver a habilidade em expressarmo-nos numa linguagem mais hermética, que permite a observação dos fenómenos de modo mais puro, protegendo-os de conceitos e interpretações rígidas. 

 

Tem algo de belo neste processo onde simultaneamente trabalhamos a nossa percepção e desenvolvemos uma linguagem que cria espaço de inclusão de percepções diferentes.

 

O espaço do Nada, que afinal inclui Tudo, contém a presença de uma inteligência criativa que floresce à medida que a nossa atenção se expande, a quietude se instala e a capacidade de observação se aguça. 

 

 

" A consciência é sempre consciência de algum objecto para o qual ela está voltada, pela sua própria característica intencional. Sendo assim, a consciência está sempre a posicionar-se para algo que não ela própria, pois ela em si mesma não tem conteúdo algum, é vazia (...)"

 

- Jean-Paul Sartre 

 

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