O maior contributo individual que podemos oferecer ao mundo.

 

 

O mundo humano é moldado pelos resultados das interacções entre diferentes seres humanos.

 

Ao aceitarmos esta premissa, mesmo que temporariamente, somos convidados a considerar que os resultados dessas interacções humanas são altamente influenciados pela atitude e estado interior de cada um - a actividade que continuamente emerge dentro de nós.

 

O que convido a ler nos próximos minutos é uma partilha sobre as razões pelas quais acredito que o maior contributo que podemos dar ao mundo é assumir a responsabilidade individual de aprender a relacionarmo-nos com os fenómenos da vida, de modo equilibrado, sem preferências. 

 

O material de trabalho e exercício desta responsabilidade pessoal são as sensações, pensamentos e emoções, o que gostamos e o que não queremos. Pois são estes elementos, e a forma como são ou não observados, que são responsáveis pelo nossa percepção e acção no mundo. 

 

Mais do que um fardo esta perspectiva traz acima de tudo esperança, pois coloca na esfera da responsabilidade individual um poder colossal para transformarmos o mundo humano que nos rodeia.

 

Com este movimento transferimos para cada um de nós a responsabilidade de observar e saber lidar, com propriedade, com o que transportamos para as nossas interacções. Esta perspectiva eleva o valor do trabalho de desenvolvimento pessoal para um patamar que vai para além do indivíduo, pois existe aqui uma natureza de serviço ao bem maior.

 

O que é desafiante neste trabalho, que é urgente que todos realizem, é que receamos e evitamos um passo crucial: a necessidade de prestar atenção ao que nos é desconfortável - pois este é o material que, quando emerge e se torna visível, sem propriedade pessoal, está na origem da tensão, desacordo e agressão nas nossas relações.

 

O que é que nos é desconfortável?

 

A negação daquilo que queremos alcançar, a rejeição daquilo que queremos oferecer, a incompreensão daquilo que expressamos, o sentirmo-nos abandonados, injustiçados, e por ai adiante. Muitas vez, tudo isto se revela para além do desconforto e ocupa-nos enquanto estado doloroso.

 

 

Embora detecte por vezes a tentação da busca da culpa exterior para o meu desconforto, e muitas vezes acabei por expressar, sempre senti a presença em mim de um algo que me convida a olhar para o meu interior. Esta qualidade de presença dá forma em mim a uma atitude que testemunha no corpo o impacto da percepção de negação, rejeição, incompreensão e por ai adiante. 

Grata por esta qualidade, investi e invisto nela, sendo que em momento algum fui decepcionada. 

Ao longo nos anos tenho aprofundado a pesquisa e integração de práticas que me ajudam a explorar este território infinito e acima de tudo me guiam e ensinam como desenvolver o estado de mente que sabe estar neste território. 

Os resultados que obtive em mim, em termos de sentir-me cada vez mais coerente e em paz comigo mesma, constituem a razão pela qual acredito que um dos caminhos de evolução do ser humano passa por (re)conquistar a habilidade em aceitar e saber lidar com ambas as polaridades da vida. 

 

A jornada de auto-observação inicia-se com a coragem de olhar para o que nos causa desconforto e dor. O que nos faz feliz é demasiado embriagante, o que dificulta conseguir manter uma mente equânime. 

 

A presença de desconforto na minha vida tornou-se ao longo dos anos um aliado poderoso que me ajuda a identificar quando me dessintonizo do fluxo natural da vida.

 

Quando falo de desconforto incluo também a dor física extrema que vivi durante 7 anos da minha vida. E foi na busca de cura para a dor e desconforto no corpo que encontrei as práticas e actividades que hoje realizo no trabalho com a relação mente-corpo.

A par dos benefícios físicos que progressivamente fui alcançando, a certa altura, começei a testemunhar como de forma natural, pelo simples facto de ter presente a intenção de trabalhar mente e corpo em conjunto, começam a surgir conteúdos sobre a existência de desconforto ou dor mental e emocional escondidos na dor física. Com a continuidade da prática e com estudo fui percebendo como todo esse material de desconforto e dor foi originado pela minha incapacidade de saber lidar com os fenómenos da vida, tal como são - transientes e perecíveis. E eu, tendo estrutura para aguentar, sustive dentro do meu corpo tudo aquilo que aquela voz me dizia ser só produto meu, mas eu não sabia como transmutar. O corpo pagou o preço maior, mas muitas pessoas nas minhas interacções também foram impactadas quando não conseguia reprimir a explosão.

 

O que nos apraz e o que gera desconforto devem ter o mesmo tempo de atenção. É tudo um contínuo.

 

 

O que nos apraz e o que gera desconforto devem ter o mesmo tempo de atenção, pois só assim desenvolvemos uma mente calma, sem preferências, capaz de testemunhar as coisas como elas verdadeiramente são - factor crucial na capacidade de realizar interacções com consciência do poder e responsabilidade em originar resultados positivos. 

 

Mas as interacções da vida que geram os fenómenos 'bons' são também difíceis de testemunhar. A busca do bom, do alegre do que nos faz sentir seguros tem um poder imenso em distorcer a nossa capacidade de observar e pensar. Vivemos os estados de felicidade com uma voracidade, procurando perpetua-los e evitar ter de regressar a qualquer outro estado de ser.  

No meu dia-a-dia, mais fácilmente me lembro de começar a observar algo que me incomoda do que algo que gera sensações boas - faz pouco tempo noto que esta consciência começa-se a surgir com uma maior frequência, quando vivo emoções positivas fortes.  

"Palavras como "equanimidade" soam bem, mas nada ou pouco significam para o homem incapaz de reduzir o ritmo com que procura adquirir as coisas do mundo."
- Hermógenes

Armadilhas no percurso

 

Nesta prática de auto-observação, com altos e baixos, fui descobrindo várias armadilhas mentais. Uma em particular celebrei ter descoberto, talvez por considerar que se camufla muito bem - uma identidade mental que finge aceitar as coisas como são. Sorriu e constato a descoberta de mais uma camada que me separa de um estado de ser em harmonia com a natureza da vida.

Desde que iniciei práticas de atenção plena, à medida que progrido e regrido, torna-se mais fácil de distinguir esta entidade mental que anseia pela dissolução do desconforto, por que 'eu estou a fazer o que é preciso, por isso vá lá, desaparece', uma energia de impaciência que quer controlar ou ignorar o processo natural. Uma energia que quer negar a existência de um ritmo próprio para tudo aquilo que se manifesta - fenómenos físicos, emocionais e mentais que surgem e desaparecem em resultado da nossa interacção com o que nos rodeia. 

 

Tenho também aquela voz mental que quer saber o por que é assim e como faço para ter sempre percepção das coisas como são. Uma avidez em querer saber, já! Mas não, também isto tem o seu ritmo próprio. 

 

O que tem mesmo valor é empenharmos a nossa energia não em resistir à vida tal como ela acontece, mas sim em praticar a arte de saber viver com a vida tal como ela é. O resto vem por si! 

 

Práticas que nos ajudam a detectar tudo aquilo que em nós nega a natureza real das coisas - a realidade é um fluxo não é uma permanência.

 

Práticas como a meditação, yoga ou qualquer outra que combine corpo - em movimento ou quietude - e atenção à respiração ajudam-nos a detectar tudo aquilo que não é verdadeiramente natural , tudo aquilo que em nós quer que as coisas sejam diferentes do que verdadeiramente são.

 

E isto não tem nada de inércia antes sim remete para a capacidade de saber realizar a acção correcta face ao que é de facto real. É totalmente diferente estarmos na vida com uma atitude de observar querendo que as coisas aconteçam de um determinando modo, do estar a observar sabendo que as coisas são impermanentes e que no seu próprio timing mudam. A primeira atitude traz desconforto, ansiedade e revela a busca de controlo, a separação e a minha ignorância*, a segunda traz-me uma qualidade de profundo respeito e apreciação pela vida, traz-me leveza, alegria, sentido de pertença e uma explosão de determinação para continuar a aprofundar a descoberta do que é verdadeiramente real e natural, em mim, nos outros e nas situações. 

 

Ser-se natural é estar em harmonia com fluxo natural da vida.

 

 

De facto é isto que acredito, que ser-se natural é estar em harmonia com fluxo natural da vida. E acredito mais ainda, acredito que quantos mais de nós, humanos, regressarmos a um ritmo alinhado com os ritmos naturais da vida - nascimento, crescimento, decadência, morte - e os conseguirmos verdadeiramente integrar na forma como experimentamos o que resulta das nossas interacções, mais esta lente nos pode ajudar a alcançar a sabedoria que nos conduza à dissolução progressiva de muitos desconfortos e dores colectivas.

Sem julgamentos de inocência e culpa, na base dos problemas do nosso mundo estão interacções entre uma, ainda, esmagadora quantidade de humanos que não consegue prestar atenção e ter responsabilidade quanto ao material interior que trás para as conversas, distorcendo a realidade e realizando decisões que criam infelicidade em si e nos outros. Temos, urgentemente, de parar de minimizar o enorme valor e papel determinante que o trabalho de desenvolvimento pessoal tem na capacidade de originar mudança positiva real. 

Ao tomarmos contacto com os nossos estados interiores, particularmente os que nos são desconfortáveis e mantendo uma mente equilibrada e equânime entramos num espaço onde podemos tratar a origem do nosso sofrimento humano. Este é o processo através do qual nos curamos a nós próprios e deixamos de contribuir para a multiplicação das chagas que se propagam neste nosso mundo. Todos estamos implicados na criação do nosso futuro colectivo!

 

Neste caminho de aprendizagem aquilo que descobri e continuo a aprender é que todo o meu desconforto ou sofrimento é produto meu, das minhas feridas, da minha estrutura mental e identitária que insiste em querer cristalizar e exponenciar fenómenos que somente acontecem e objectivamente não permanecem. O que permanece é o modo como eu lidei ou não lidei com o que aconteceu. O meu mal-estar é um produto meu. E conforme aprendo a cuidar dele cresce a consciência de responsabilidade de não andar por aí a distribuir e multiplicar esta criação humana e estar ao serviço para que outros também o possam fazer.  

 

Uma pessoa contente no mundo é menos uma pessoa a agredir. E este é um valioso contributo individual que podemos dar ao mundo.

 

O convite que está subjacente a esta partilha não representa um exercício fácil, por vezes tem momentos que digo ' é demasiado', em momentos muito difíceis, já disse 'desisto, não aguento mais'.

Aquilo que está automatizado em nós é a tendência para vivermos esses fenómenos tentando-os perpetuar ou repelir, em vez de estarmos atentos à importância relativa das coisas, nossas e dos outros.

Tudo isto exige um tremendo esforço e determinação pessoal. 

Mas digo também com segurança que o empenho e tempo aplicados a tudo aquilo que nos possa auxiliar a tornar a nossa mente-corpo capaz de ver o mundo tal como ele é, constitui dos melhores investimentos que podemos fazer em nós próprios, por nós e por todas as nossas relações. No caminho encontramos o Contentamento, um estado de mente que nos permite estar calmamente alegres em qualquer situação e estarmos em paz connosco.

 

 

"Jogaram uma pedra na tranquilidade do lago. O lago comeu-a. Sorriu ondulações. Voltou a ficar tranquilo."
- Hermógenes

 

Quaisquer perguntas sobre estes processos e práticas, quais os benefícios, como iniciar ou como integrar no dia a dia, são perguntas bem vindas. Estas ou quaisquer outras inquietações que esta leitura possa ter suscitado.   >>

 

 

 

 

 

Grata pela atenção e tempo dedicado. Boas reflexões! 

 

Njiza

 

Coach e Facilitadora

  • processos de desenvolvimento pessoal

  • acções de grupo para aprender, mudar e inovar

 

 

*por oposição à ideia de clareza mental.

 

 

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